• F.S. Persea

Sempre vá acompanhada a uma consulta médica

Atualizado: Out 8

[ aviso de gatilho: sangue, violência gráfica]

Eu estava esperando meu nome ser chamado na sala de espera da clínica e mexia furiosamente no meu cabelo, minhas unhas já roídas até o talo. Fotos de bebês por todas as paredes, casais hétero de meia idade na sala toda e uma péssima escolha de música ambiente. Aquele barulho (dá mesmo pra chamar um remix fora de tom de música gospel da época dos nossos avós de música? Eu já ouvi animais morrendo fazerem um som mais bonito.) quase fazia meus ouvidos sangrarem. Ainda assim, eu tinha que esperar até ser minha vez de ir à sala de tortura...

Chamo consultórios médicos de “sala de tortura” desde que me lembro. Não tem uma vez sequer que eu não queira ir embora assim que coloco os pés dentro da clínica. Ligar para marcar a consulta é a parte mais fácil, o que acontece depois que eu desligo o telefone é que desvela essa adulta disfuncional que sou. Começa como um sussurro inaudível, vagando perdido pela minha mente e me dizendo que é uma má ideia; o sussurro vai ficando mais alto e mais alto conforme passam os dias entre minha segurança e a maldita consulta. Eu fico sempre escutando meu próprio conselho de não ir, de que não vale a pena e que eu vou me arrepender mais cedo do que tarde.

Ainda faltam dois dias para a consulta que eu marquei e eu já estou suando horrores. Se estou vendo alguma coisa online, a lembrança vem de súbito e me desconcentra, as imagens na tela meramente se refletem em meus olhos. No trabalho minha performance diminui e até meus colegas percebem. Todo barulho me apavora, seja uma torneira pingando ou uma caneta que cai. Você deve estar pensando “se ela é tão perturbada e ansiosa por causa disso, por que não toma um ansiolítico?”. Eu poderia, de verdade poderia tomar algum remédio; na verdade, eu já tive uma receita assim antes e funcionou maravilhosamente bem! Nunca antes eu tinha ido tão tranquilamente nas consultas de rotina (e descoberto um nível alarmante de órgãos fora do normal); mas o remédio acabou antes de eu me dar conta e eu nunca consegui reunir forças para ir na psiquiatra renovar a receita.

Quando finalmente chega o dia de levar meu corpo incrivelmente tenso e ansioso até a clínica, com ele também surge um grande apetite por liberdade, me prendendo de volta à realidade: nada do que eu imagino pode ser verdade, médicos, homens ou mulheres não são monstros. São apenas pessoas tentando cumprir seu papel no ambiente de trabalho e seu papel é tratar mazelas que acometem o corpo humano. Não é julgar hábitos, rir da sua condição ou te encarar a consulta inteira. São apenas pessoas trabalhando.

Juro que não sei de onde esse medo todo vem, quando eu era criança meus pais me levavam sempre para consultas. Um resfriadinho, um osso quebrado, nutricionistas para me fazer comer mais vegetais – uma empreitada sem sucesso, devo dizer. Nenhum desses eventos me deixou mal alguma vez. Talvez tenha sido em algum ponto da adolescência, aquela época da vida em que você começa a esconder as coisas de seus pais porque não sabe como eles irão reagir.

Infelizmente nesse caso o tempo voa como a água que escorre pelas mãos tentando seguir seu fluxo natural da terra aos céus se repetindo infinitamente. Eu divago, mas me perdoe, é essa ansiedade crescendo dentro de mim e permeando cada poro, fio de cabelo e célula do meu corpo. Eu realmente não consigo me sentir segura em um consultório, a não ser que eu tenha certeza de que consiga me defender. E se ele for um sequestrador de corpos? Na consulta de hoje eu terei de me despir e abrir as pernas para um completo desconhecido, vulnerável, desamparada e impotente. Então eu vou levar meu totem comigo. Ela me acompanhou em muitas outras consultas antes, sempre ali dentro da minha mochila ao alcance de minhas mãos se eu precisasse de repente. O detector de metais do metrô não me deixaria passar. Vou de táxi para variar.

A espera na clínica é exaustiva só de ter que ficar ali no saguão parada. As fotos horrendas, as pessoas grotescas ao meu redor com seus estúpidos olhos cheios de preconceito, me encarando como se eu fosse uma alienígena e não pertencesse ali. No olhar deles dá pra ler “essa merecia estar na rua vendendo o corpo pra pagar o jantar”. Sim, estou dolorosamente consciente de que nem todos são monstros; mas quem é? E quem não é? Se eu não posso dizer com certeza, meus instintos de sobrevivência apenas continuam me dizendo para evitar todos, monstros engavetados com suas palavras ásperas e tabus.

– O que você está encarando, bruxa com barriga de balão? Você não tem modos, não sabe que é extremamente rude ficar encarando as pessoas assim? – eu realmente tinha vontade de dizer isso em voz alta, só que teria de ficar me repetindo tal qual um político em campanha, falando sempre a mesma merda repetidas vezes. Tem coisas que não valem a pena a saliva que gastam. Pra ser honesta, os maridos parecem um tanto quanto estressados, olhos perdidos no horizonte, pobres criaturas que não podem nem olhar para os lados por medo de serem censurados pelas esposas. Sinceramente?, se eles tivessem alguma vez se comportado corretamente suas esposas não temeriam nada; mas eles mentem, enganam e fazem falsas promessas. Homens, apenas colhem o que plantam.

Talvez seja meu medo e a tremedeira igual a uma bandeira no mastro em um dia de muito vento que atraiam atenção. Ou talvez seja meu cabelo verde em um pequeno moicano, o corpo todo tatuado, a calça jeans toda rasgada e o coturno. Além de olhar ao redor por um lugar para sentar (já faz uma hora, sessenta minutos, três mil e seiscentos segundos de espera e contando…) eu não fico encarando as pessoas. Me ver no meio dessa gente sem graça, padrão, me faz sentir um lixo. Esse é o poder das simbologias, ser maior que o portador.

– Senhora Elisabete! –, gritou uma enfermeira.

– Senhora Elisabete da Silva! –, ela gritou novamente e dessa vez era mesmo comigo.

Peguei minha mochila do chão (aparentemente a única mulher do mundo a usar uma mochila, pela forma como fui encarada), andei apressadamente em sua direção e quase dei de cara no chão graças a um pequeno grupo de crianças que simplesmente tinham que correr pelo salão fazendo a maior zona.

– Olá, – disse a médica de uns quarenta anos e mais ou menos da minha altura – então, me diga, o que te traz aqui hoje? – que incrível trabalho de esconder seu preconceito ela fez agora. Ter uma máscara protegendo a face realmente ajuda nesse sentido.

– Eu preciso de uma revisão geral. –, consegui dizer depois de um silencioso embaraçoso enquanto ela me ignorava do outro lado da mesa.

– Certo. Por favor tire a roupa e esvazie a bexiga ali – ela apontou para um pequeno banheiro dentro do consultório. – vista o avental com a parte aberta para frente, não para trás. Você pode ficar de meia se quiser. – o tom receptivo já havia se dissipado. Tudo o que precisou foram três minutos e a confirmação do meu nome, idade e data da última menstruação.

– Deite-se e coloque os pés aqui. –, ela já estava de luvas quando eu saí do banheiro e me indicou a cadeira onde eu deveria deitar. O suporte para pés era realmente gelado, ainda bem que mantive as meias. – Agora deslize com o bumbum até o final da cadeira. –, fiz como ela me mandou. Em questão de segundos ela já tinha colocado o espéculo em mim e girado para o abrir.

– Hm, é uma infecção. –, ela rapidamente usou um cotonete comprido para coletar uma amostra, removeu o espéculo e me disse para me vestir de novo. Novamente fiz como ela me disse, esperando poder falar abertamente quando tivesse terminado de me colocar minhas roupas. Enquanto me vestia de novo no banheiro eu me senti um lixo, só mais uma vagina entrando no consultório fazendo dinheiro chover na conta dela. Quanto mais rápido ela pudesse me dar “tchau” e chamar a próxima paciente, mais mulheres ela conseguiria marcar para a semana que vem. É fácil de entender porque cada vez mais pessoas caem na lorota dos “médicos” e “terapeutas” da pseudociência: nós detestamos ser tratadas como objetos, números num prontuário, quando na verdade somos seres sencientes capazes de sentir tristeza e orgulho. A médica não sabia, e não saberia jamais se ela fosse uma pessoa gentil, que apesar de eu tremer como pudim em cima de uma mesa dentro de um prédio durante um terremoto, eu sou orgulhosa. Muito orgulhosa.

Orgulhosa de minhas habilidades, minha sagacidade, minha criatividade, meu estilo de vida e tudo que defendo. E eu também sou muito orgulhosa da minha amiga M. Eu carrego minha amiga comigo para todas as consultas, e lá estava ela dentro da minha mochila, embrulhada num tecido parecendo um casaco. Nenhum médico me fizera usá-la antes, mas essa de agora… “Ela merece” disse a voz dentro da minha cabeça. “Olha bem pra ela. Tem cara de quem te quer bem?”

“Ela nem quer olhar na sua cara”

“Olha pra ela, falando contigo como se você não tivesse um cérebro”

“Ela te acha uma puta”

Eu tentei falar pra doutora que tudo que eu queria era estar limpa e praticar sexo seguro, mas ela estava fixada em reprodução humana. Sexo oral? Você é louca ou algo assim? O ato sagrado de fazer amor serve apenas para gerar bebês lindos, rechonchudos e barulhentos. O quê? Não me faça dizer novamente.

Sim, eu podia ler isso no rosto dela, o desprezo absoluto pela minha presença e estilo de vida. Elas estava irritada com minha presença e queria que eu fosse embora imediatamente, saindo pela porta do consultório para nunca mais voltar, nem mesmo para consultar o resultado da coleta do exame.

“Ela te acha suja!”. Basta, essa foi a gota d’água. Tolerei mais do que o suficiente sem dar uma resposta decente. Estiquei a mão para alcançar dentro da mochila.

Eu fiz de tudo para me poupar do constrangimento de ter de me vingar. Eu dei a ela a chance de simplesmente se calar, de não falar mais nada e apenas escutar ao que eu estava dizendo….mas ela me ignorou.

– Você sabe o que é isso que eu estou segurando? –, eu disse em voz alta interrompendo o falatório dela enquanto desembrulhava M do tecido e me levantava da cadeira. – Isso é uma machadinha. Os bombeiros a usam para arrombar portas e janelas. Dizem que ela corta madeira e vidro como se fossem fatias de pão. Não, não aquele pão velho que parece pedra. Aquele pão fresco, macio e fofinho. – a médica ficou horrorizada com a visão de M em minhas mãos, seus olhos estáticos e em choque, como se sua mente pregasse uma peça nela. Ela tentou se levantar, mas eu disse para que não se mexesse. – Você, saco velho de ossos, fica quietinha no seu lugar. Não ouse fazer mais nada contra mim.

Antes que ela tivesse a chance de sair do transe, eu desferi o primeiro golpe. Eu errei miseravelmente, acho que não pratico o suficiente. A machadinha passou longe da cabeça dela e foi direto para o ombro. Ela começou a sangrar instantaneamente, um grande jato de sangue esguichou no primeiro momento sujando o teto do consultório; a machadinha ficou presa no ombro, que sangrava por conta do ferimento. A doutora soltou um grito estridente de dor pura e eu pulei por cima da mesa para tampar sua boca com minha mão e recuperar minha machadinha. A sala de espera do consultório estava tão lotada que eu duvido que alguém tenha escutado o grito dela. Assim que puxei a machadinha, liberando-a de onde estava presa no ombro da médica, sangue voltou a jorrar do corte sujando as paredes, o teto, a mesa e todos os papéis do consultório, além de seu jaleco.

– É isso que você ganha por ser uma babaca preconceituosa, sabe? –, eu disse enquanto sentia o toque de M, minha queria amiga machadinha. Ela preenchia minhas mãos com o cabo sedoso de madeira polida, então a levantei e desferi mais um golpe. As mãos da médica fizeram um som de plástico sendo amassado enquanto oito dedos eram decepados de uma vez só, os cotocos caindo no chão e junto a eles um anel dourado.

– Ah, eu entendo! A senhora é casada. Ele te satisfaz? Porque eu aposto que você é uma parceira incrivelmente medíocre e sem sal. –, a última parte eu gritei em seus ouvidos, olhando enquanto lágrimas escorriam por seu rosto e o sangue fluía para fora de seus dedos meio amputados como uma cachoeira e formava uma poça no chão.

A essa altura eu nem me importo mais se entrar alguém na sala. Que se danem todos eles com seus tabus e tradições ridículas. Tudo que eu quero agora é vingar minha honra, impiedosamente massacrada pelo tratamento que ela escolheu me dispensar. Eu peguei M com as duas mãos, mirei no pescoço dela onde ficam as cordas vocais.

– Mulheres não são máquinas parideiras, veja bem, –, ela tentou se levantar num último esforço, mas a perda de sangue já era muito grande e ela caiu de volta na cadeira. – algumas de nós só querem uma vida feliz e livre de bebês, –, agora ela tentava parar o sangramento das mãos, mas a poça de sangue já estava na porta. – mas ginecologistas como você não querem ver mulheres felizes, querem? –, eu chutei as mãos delas, fazendo o sangramento voltar ainda mais forte.

– Por favor, pare!, eu sinto mui-

Atravessei a médica pelo pescoço, não deixando que finalizasse o que estava dizendo. É claro que qualquer pessoa na situação dela pediria desculpas, mas ela não se sentia assim de verdade. Jamais se sentiria. Ela faria pouco caso de todas as outras mulheres como eu que entrassem em seu consultório. A cabeça dela caiu nos meus braços conforme eu fui para frente com a força do golpe, depois rolou para a mesa e então para o chão quando eu me sacudi para me livrar dela.

– Urgh, minhas roupas estão todas molhadas –, eu reclamei em voz alta olhando ao redor. O corpo dela tremeu um pouco e tombou para frente, em cima da mesa. Eu vi uma das vértebras C sair do branco para ficar toda vermelha viva. Tentei limpar a machadinha no jaleco, mas ele estava completamente coberto de sangue até nas costas. Circulei a mesa dessa vez, meu coturno fazendo “plosh” no chão coberto de sangue enquanto eu dava meus passos e pegava minha mochila, guardando M de volta.

Eu tirei minha máscara protetora e a segurei com a mão esquerda. Com a mão direita eu levantei pelos cabelos todos emaranhados e cheios de sangue a cabeça decepada que havia rolado para uma quina do chão com as paredes.

– Você nem parece tanto com uma imbecil agora que você é um trapo –, eu falei e cuspi na cara dela. – Não que eu me importe –, arremessei a cabeça em direção à lixeira, cesta de três pontos! Coloquei minha máscara de novo e abri a porta.

Opa! Quase esqueci a receita. Voltei para procurar em cima da mesa, que parecia uma mesa de sinuca de veludo vermelho, e achei uma ponta de papel acima da poça de sangue, logo debaixo do peitoral dela. Levantei o corpo, que caiu a meio caminho do solo com um baque surdo ao atingir a parede e dobrar de maneira bizarra. Saí da sala abanando o papel para ver se me livrava do excesso de sangue até chegar na recepção.

– Oi, a doutora me disse pra tomar esses remédios, mas não explicou o motivo, então eu não vou tomar porra nenhuma. Pode ficar com esse lixo aqui –, deixei o papel em cima da bancada e fui embora pela porta da frente sem nem olhar pra trás.

FIM.

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