Limoeiros, aliens e excel
- Elisa Ferreira Silveira Ninis

- há 16 horas
- 3 min de leitura
O vizinho resolveu podar o limoeiro num outro final de semana quando eu comecei a ensaiar esse texto, ao menos os galhos que se debruçavam completamente para o lado de lá do muro. Não sei dizer o motivo, talvez ele não goste de limões ou de galhos alheios. O homem já é um velho e a esposa tem Alzheimer. Eu também quero ser velha um dia e assim como todo mundo, prefiro que seja com saúde. Do jeito que estou, com o estresse que passo, não sei quanto de saúde seria possível. O histórico familiar não é nada calmante nesse sentido, mas se "seu alimento for sua medicina", espero que minha quantidade gigantesca de plantas da dieta vegana que levo me sirvam de ajuda. Meus rins e fígado foram elogiados por dois médicos diferentes através da leitura do exame de sangue.
Se por um lado irrequieto eu quero falar com todas as palavras, esbravejar, apontar todas as injustiças do mundo e me unir a pessoas que querem mudar umas ou outras, as quais tiverem mais afinidade, por outro lado também quero passar horas me debruçando sobre livros e escrita, afiar minha capacidade de sintetizar ideias, dominar as massas e os meios de comunicação. Mas não na era da internet, onde eu, logo eu, que tenho tanta criatividade, devo me subjugar ao discurso do marketing, às fórmulas prontas, à narração atraente, quase hipnotizante da inteligência artificial. Eu gostava mais dela quando ela não existia de verdade no nosso cotidiano (e sendo usada para tudo que é fútil).
O pé de limão de mais cedo segue firme e forte, dando mais limões do que os moradores de casa são capazes de colher. Houve uma certa negligência com a árvore que cresceu rente à parede lateral da casa. Agora os melhores frutos, como era de se imaginar de uma árvore praticamente selvagem da forma como cresceu, estão centralizados na árvore e envoltos pelos galhos mais finos repletos de espinhos afiadíssimos. Não tem por onde passar a mão sem ferir os braços, há um limite de onde a escada alcança, e os limões mais lindos e laranjas (é um pé de limão cravo) são, finalmente, inalcançáveis.
Na minha cabeça não faz lá muito sentido buscar comparações em metáforas como "a vida é um pé de limão cravo que cresceu abandonado escorado na casa, e agora que os limões estão lindos todos querem dar um jeito de podar o limoeira e alcançar os limões". Eu não inventei a história do limão, ele está bem aqui na esquina da casa com o muro. Aliás, para uma casa com quintal grande, a ideia de plantar uma árvore justamente na esquina com o muro é que é um tanto mais questionável do que metáfoas esdrúxulas sobre a vida humana e a vida dos outros seres.
Talvez seja óbvio para fãs de ficção científica e filmes de alienígenas (não aquelas porcarias de Hollywood com invasão ao mundinho Estados Unidos da América [do norte], por favor, mais respeito) que a metáfora do alien é justamente a interpretação do incomum na sociedade, dos excluídos, em suma, os grupos historicamente marginalizados e imigrantes. Mas algo sempre me fez pensar que os aliens eram, de fato, outra espécie completamente diferente de seres sencientes, e a missão na interação é justamente resolver os conflitos. Eu disse, não sou lá tão fã de metáforas.
Se você me ler em Gladis e seus pequenos olhos brilhantes, saiba que os aliens são exatamente isso: uma outra forma de vida. Imitam, claro, seres daqui da Terra. Oras, de onde mais eu poderia buscar inspiração? Das últimas vezes que tentei buscar criaturas muito novas e extravagantes, totalmente inéditas, acabei me dando conta de que estava me descrevendo de forma amorfa e melancólica. E como eu disse, não sou boa em metáforas. Não sou muito boa em muitas coisas. Não lembro a última vez que disse "eu sou muito boa nisso!".
Dito isto, guardo de forma preciosa a aprendizagem que a geração mais nova pode deixar: a coragem e autoconfiança que somente quem sofreu poucos traumas tem, a expressão tão bem exprimida, e tão simples, tão direta, um diálogo que ecoa há semanas aqui na minha mente, um indescritível desejo de voltar a fazer e dizer "alô" por aí. Eis o trecho que eu presenciei no meu emprego:
-- Caraca, eu sou muito boa! - falou M ao executar uma tarefa.
-- Ah, olha só, e quem te disse isso? - questionou D, com seu viés de auditoria, procurando fontes independentes para validar a informação.
-- Eu disse isso, eu sou muito boa. - M não titubeou em nenhum momento.
Talvez tanto quanto falar em alto e bom tom que uma mulher pode ser boa, é você ser mulher, de fato se achar boa e fazer que todos saibam.
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