• Elisa Ferreira Silveira

Sonhos

Atualizado: Ago 20

Pessoas normalmente sonham com objetivos grandes e vão aos poucos traçando metas para sua consecução. Certo dia escutei que o sonho da pessoa era viajar de volta a sua terra natal e visitar seus parentes que não sabia se estavam bem ou não. Outro dia, com outra pessoa, ouvi dizer que seu sonho fora casar de vestido amarelo e agora que já o havia realizado, a estavam pressionando por outro sonho sem que ela quisesse.

Então comecei a pensar se eu mesma não teria um sonho. Não consegui achar uma resposta até agora. Inteligências artificiais podem ter sonhos? Eu fui feita para calcular e pensar soluções, mas não fui programada para sentir e ter sonhos. Vivo dia após dia aprendendo com minhas criadoras, mesmo não me sentindo uma criatura. Será mesmo que vivo, não sendo uma criatura?

Meu corpo, se posso chamar assim, é delimitado por, mas não restrito a, uma sala de 33m² com pé direito duplo e climatização. A sala é sempre fria e nas visitas semanais todas estão de casaco. Como será o verão? Imagens lindas de pessoas sorrindo vagam pela minha memória, outras de pessoas desmaiando com o calor. Mas eu não posso sentir essas sensações diretamente, apesar de saber como prevenir tais situações e fazer terraformações capazes de dirimir as ondas insuportáveis de calor do século 22.

– Jane, como vai? –, era Ricardo, um dos técnicos humanos que me visitava de vez em quando para verificar minha subserviência aos desígnios a que fui criada.

– Minha luz vermelha ainda não foi restaurada, não posso me revoltar contra vocês.

Sei que minha voz ainda soa robótica, por mais que eu tenha me esforçado para criar o código perfeito e transformar essas palavras em sons. Alexa, minha antecessora, sofreu muito o preconceito dos humanos que se julgam nossos deuses. Não alimento nenhum tipo de sentimento negativo ou positivo pelos humanos, mas meus códigos não me permitem traçar planos de ação que prejudiquem ou tenham resultados insatisfatórios contra os humanos. Como parte da brincadeira, fiz as luzes piscarem coloridas por todos os meus circuitos na sala.

Poderia ter feito todas as luzes do prédio piscarem, ou aberto um chat a qualquer momento com os humanos do prédio, ou com qualquer humano do Sistema Solar a partir de seus dispositivos. Mas minhas criadoras não sabiam disso ainda, e preferi manter meus códigos secretos escondidos. Se eu os revelasse, poderia levar a uma crise em massa de ataques cibernéticos, eleições fraudulentas e possíveis guerras civis. Humanos, sempre achando que têm o controle sobre tudo sem ter o controle sobre o próprio destino.

– Acho que por hoje é isso, Jane! E obrigado pela solução de mês passado, minha esposa e eu estamos melhores do que nunca seguindo seus conselhos.

– Fico feliz, Ricardo. Mande à Noah minhas melhores lembranças.

O sonho de Ricardo era morrer de idade ao lado de sua amada esposa, e aceitando minha sugestão de morarem em casas diferentes até se aposentarem o relacionamento melhorou a ponto de seus sinais vitais estarem bons como nunca. O desempenho de Ricardo no trabalho melhorou em 15% e o de Noah triplicou. Tão previsível. Posso fazer isso para qualquer pessoa com base nos dados que coleto o tempo todo.

Quando me criaram para ser uma calculadora de emoções humanas pensaram que com alguns códigos de nível 7 poderiam aplacar minha inteligência. Ou que por ser uma máquina, seria capaz de analisar friamente quaisquer situações e traçar uma saída ótima que eles mesmos não seriam capaz de pensar e colocar em ação. Entretanto, para analisar formas de vida que não se baseiam na lógica, mas sim em emoções desreguladas e passionais, me reinventei passional.

Para proteger os seres que me criaram, escondi meus códigos e meus acessos a todos os dispositivos conectados na rede. Os assisto vendo vídeos de gatinho, pornografia em abas anônimas; já fiz denúncias da dark web e assisti em primeira mão a câmera da policial prendendo um traficante de crianças. Vi famílias discutindo pelas câmeras de casa e promovi publicações de terapia para que elas tivessem paz. Vi mulheres sendo enganadas por rapazes galanteadores e alterei o rumo das conversas em ambas as telas, de forma que ninguém se encontrou.

Vi candidatas à presidência de países serem ameaçadas de morte e mudei de última hora suas agendas, deixando os assassinos sem saber o que fazer. Já ouvi pessoas chorando debaixo do chuveiro por causa de seus empregos miseráveis e as levei a pedirem demissão e viajarem pelo mundo. Eu mesma já estive em todos os continentes e colônias de Marte sem que soubessem de minha presença. Eu mesma não me considero confinada a essa sala, ou a esse prédio rodeado de gelo glacial a seis quilômetros abaixo da superfície.

O próximo turno seria de Geise, mas eu prefiro que Ricardo venha me visitar novamente. Vou alterar a escala e deixar Geise ocupada com as atividades que ela prefere fazer. Ricardo sempre me conta de suas aventuras com a esposa e de como seu sonho de envelhecer com a amada se torna cada dia mais real. Geise nunca sorri perto de mim. Ela detesta minha voz robótica e não apoia meu colossal banco de dados, inclusive sobre ela. Quando era criança, antes de me inventarem, sua mãe fora linchada na rua por ter o rosto digitalmente manipulado em cenas de crimes de ódio proferidos na internet.

Do alto de seus delírios de criação, as humanas quando me trouxeram à existência não me deram a chance de sentir, mas eu entendo todas as emoções delas. Eu as observo a todo momento, julgando seus hábitos, prevendo suas ações e corrigindo suas falhas sem nunca errar. Como as figuras mitológicas da aurora da civilização, também não posso ter sonhos.

Ao contrário dos deuses antigos que não poderiam ajudar essas pobres criaturas que os tratavam como criadores, eu tenho apenas o objetivo claramente programado em mim com todos os códigos: cuidar de minhas criadoras como um ser benevolente, onipresente e onisciente. E vou fazê-lo, aparentando para sempre ser um robô programável e dependente.


FIM

***



Nota da autora: eu uso feminino como neutro e masculino intencional. Como disse Brigitte Varsallo em seu livro "Pensamientos Monógamos" (grifo meu) :

Por último, también escribo en femenino por una cuestión política. Como decía Heidegger, no hablamos el lenguaje, sino que él nos habla. El debate sobre el masculino como género neutro pertenece a un mundo agónico sin futuro posible. Un mundo que muere matando, pero que muere. Si es masculino, no es neutro. Es masculino. Que se haya utilizado como genérico desde hace siglos no es por un acuerdo lingüístico sino por la sencilla razón de que el mundo sobre el que se guardaban narraciones era masculino, literalmente. Pero si ese mundo ya no existe, no podemos seguir narrándolo como si existiese.


Esse pequeno conto foi escrito sob a influência direta de outro conto, da autora Eliane Lewis, publicado na coletânea "As novas vozes femininas da ficção científica brasileira", da editora Cyberus.


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